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é escritor, tradutor, doutor em Filosofia da Educação (USP), professor, palestrante, blogueiro, autor de vários livros sobre leitura, linguagem, escrita criativa, educação, formação docente e estética. Mais informações no site www.perisse.com.br

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Leitura das entrelinhas

Mario Quintana (1906-1994), em seu Da preguiça como método de trabalho, escreveu:

"Marcel Proust não tem entrelinhas, explica tudo, sufoca o leitor, não o deixa respirar, não o deixa pensar."
Logo, por oposição, temos aqui algumas características da leitura das entrelinhas: (1) não explica tudo, (2) abre espaços e (3) provoca o pensamento.

Respirar bem faz bem. Respirar o texto. Respirar no texto. Profundamente. Respirar literariamente cura-nos de várias doenças: tédio, obsessões cansativas, desconfianças infundadas (ou mesmo fundadas), medos de várias cores e texturas. No texto, quanto mais amplas as entrelinhas, mais oxigênio para a mente leitora. É um bom exercício não entender tudo. E, não entendendo, ter de inventar/descobrir nexos. Ter de respirar por conta própria.

Outro gaúcho, Fabrício Carpinejar (1972-), assinou "Casa" para o livro Dicionário amoroso da língua portuguesa (Casa da Palavra, 2009), organizado por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá. Um trecho, para nos inspirar:

"Uma casa põe chapéu para não perder mais o guarda-chuva. Uma casa não pode permanecer arrumada, como se estivesse à venda. Uma casa depende de alguma desordem, um atalho, um alçapão para conservar vinhos.

"Uma casa precisa ser estranha por fora e íntima por dentro. Uma casa tem que ter espaço para cuspir neblina, e telhas para derreter queijo na chapa. Uma casa tem que mostrar infiltrações de vez em quando, sofrer gripe, chorar pelas paredes.

"Uma casa coleciona moedas raras com o barulho das calhas. Uma casa sem lagartixas não é ainda uma casa. Uma casa sem baratas é um berço. Uma casa tem que apresentar uma saída pelos fundos, mesmo que seja a janela.

"Uma casa tem que pedir esmolas aos prédios vizinhos. Emprestar sede para a praça." (págs. 24-5)

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